26 de junho de 2012

*Estupro: Você perdoaria?*


Perdão. Palavra pequena, mas de grande impacto a ponto de deixar ate alguns cristãos desconfortáveis. Afinal, será que é possível perdoar um estuprador? A vítima ficaria com o bebê concebido durante tal crime? Estas são apenas algumas das questões abordadas pelo filme "Amar o homem mau".
Segundo o ator principal do longa-metragem produzido pela Stone Bridge Filmes em parceria com a Eastlake Filmes, Stephen Baldwin, o objetivo é levar os espectadores a se reexaminarem e pensar se, realmente, vivem o princípio ensinado por Jesus. É "chamar as pessoas para realmente olhar para quem está em Cristo”.
Assistido por mais de cinco mil pessoas numa única sessão, nos Estados Unidos, o filme está sendo exibido em diversas cidades do país norte-americano. O trabalho, inclusive, não é evangelístico, mas tem peso para aqueles que se dizem cristãos. "Estamos vivendo numa época em que, se você está brincando com a sua fé, vai ser responsabilizado”, declarou.
Para o produtor executivo do filme e diretor da Goldman Sachs, Tom Conigliaro, a produção escrita pelo diretor Peter Engert não é sobre estupro, mas mostra o desenrolar das consequências na vida dos atingidos pelo fato. A mensagem de "perdão e redenção sob as circunstâncias mais extremas" teria um impacto nas pessoas.
Inclusive, há relatos de espectadores que decidiram exercer o perdão após assistir o longa. "Talvez essa seja a razão porque fiz esse filme. Talvez tenha sido a convocação, para ajudar este indivíduo, cuja vida está potencialmente mudada para sempre", afirmou Conigliaro.

Casos reais: Quando a dor fala mais alto

Para quem sofreu violência sexual, entretanto, a profundidade da ferida é bem maior do que o filme “Amar o homem mau” pode expressar. É o caso da amazonense Adriana Silva*, 24, que sofreu estupro do próprio tio, quando ainda era criança. Mesmo após a idade adulta, ela não consegue esquecer o crime. “Eu tinha só quatro anos e não aconteceu apenas uma vez”, declarou com a voz embargada.

O maior sofrimento da universitária, que é evangélica, foi não ter apoio da própria família, que decidiu não denunciar à polícia e “varrer o problema para debaixo do tapete”. A moça se deu conta de que não havia esquecido, quando reencontrou o agressor após 15 anos. “Todos acharam que eu ia esquecer, mas no dia em que o encontrei por acaso, na rua, veio todas aquelas lembranças e chorei muito”, afirmou, ao confessar que não conseguiu perdoar.

Já a estudante Cláudia*, 17, passou pelo trauma do estupro, há cerca de 1 ano. Diferentemente de Adriana, ela não conhecia o criminoso, que aproveitou o fato de a mesma estar sozinha em casa, se arrumando para sair. “Roubaram algo muito precioso, sofri ameaças e preconceito dentro da minha própria família, que não acreditou em mim”, disse, ao revelar que só consegue dormir à base de calmantes desde o dia do ataque. “Basta eu fechar os olhos para lembrar...”, completou.

Ela não se sente segura sozinha, mesmo que alguém esteja no cômodo ao lado. Também cristã, ainda não sabe quando conseguirá superar a dor e liberar perdão. “Não sei se eu perdoaria tão cedo; o perdão é uma dádiva de Deus, não são todos que sabem pedir ou dar, principalmente neste caso”, explicou. “Quem sabe, um dia, eu perdoo”, disse, em tom triste e pensativo.

Entre a fé e a razão

Na opinião da psicóloga Lídice Cristina da Mata Santos, o perdão é possível. Entretanto, a maneira como fé e razão lidam com o trauma de um estupro varia de pessoa para pessoa, porque o processo de superação se projeta de maneiras diferentes. “São questões diferentes, espiritualidade versus ciência”, disse ao ressaltar que esse tipo de violência atingefísica, emocional e psicologicamente.

Por afetar diferentes áreas, ela recomenda o acompanhamento de médicos, de um profissional de saúde mental – como terapeuta, psicólogo ou psiquiatra – e também espiritual, seja de padre ou pastor. “É difícil, porque é uma lembrança que sempre fica na ‘caixinha preta’ da pessoa”, simplificou a também psicopedagoga. “Não temos dimensão da dor que ela sente”, completou.

Segundo Lídice, mesmo que se passem muitos anos e seja feito um tratamento, há acontecimentos do cotidiano que possam lembrar a mulher do sofrimento. A maior dificuldade de quem passou pelo estupro é lidar com o toque do homem amado. “A luta maior é com ela mesma, que pode ter dificuldades com o parceiro”, afirmou, ao lembrar que o apoio da família é fundamental. “Ela tem que participar de processo terapêutico”, enfatizou.

Apesar de ter uma visão mais profissional do problema, a psicóloga acredita que o perdão concedido ao agressor é um processo independente de tratamento físico ou mental. Para ela, é uma questão de ordem espiritual. “Porque entra numa questão de fé; ela pensa no que motivou o agressor a fazer isso e que apenas estava no lugar e hora errados”, concluiu.

Uma prévia da história

Enquanto Stephen Baldwin interpreta McQuade, líder dos skinheads, Christine Kelly (Julie Thompson) é uma cristã conservadora, que se sente uma pessoa excluída da família. O pai é cético, o irmão mais novo é um DJ, que zomba da vida cristã devota, e a mãe (interpretada por Kim Ostrenko) é uma cristã menos dedicada.

Na história, Julie é estuprada por Mike Connor (Arturo Fernandez) e fica grávida. Os eventos parecem um teste para a fé da moça, mas o filme não retrata a luta real dela para chegar à conclusão de que deve perdoar o estuprador. Mostra como ela não abandona a fé e pratica o mandamento bíblico de amar o inimigo e perdoar como Deus a perdoou.

Nem uma única vez a vítima compromete suas convicções, mas o mesmo não se pode dizer da mãe dela, que diz "Deus iria entender", ao sugerir abortar o bebê. Entretanto, o choque maior para a família Thompson é descobrir que a moça visita Connor. "Eu não quero ajudar as pessoas só porque isso me faz sentir bem comigo mesma", diz a personagem.

*Os nomes foram mudados para preservar a identidade das entrevistadas.

20 de junho de 2012

Dança na Igreja: Técnica x Essência



Clássico, moderno ou contemporâneo. Quem dança na igreja há alguns anos acompanha a evolução e a implantação de técnicas profissionais dentro dos cultos em Manaus. Entretanto, há uma preocupação entre líderes de diferentes ministérios: o desequilíbrio entre a consagração e o profissionalismo.  “Está se trocando altar por palco”, disse a pastora Mary Melo, 42, da Igreja de Deus Pentecostal do Brasil (IDPB).
Segundo ela, que é uma das líderes pioneiras na capital amazonense, há aproximadamente 15 anos, o problema era o preconceito e a não aceitação da dança dentro dos cultos. Hoje, a busca pela perfeição técnica tem deturpado o uso da segunda arte. “Temos que buscar conhecimento para fazer melhor, mas muitos perdem a essência, o propósito, no meio do caminho”, declarou.
Ainda de acordo com a bailarina, utilizar a metodologia não é o problema. Mas a maneira como ela ganhou prioridade, deixando o lado espiritual e a busca por Deus em segundo plano. Querer apresentar algo bonito aos olhos humanos, ressaltou, nem sempre agrada ao principal espectador: Jesus. “Temos muitos grupos com técnica, com coisas boas e bonitas. Mas perde a essência”, lamentou.

Um peso, duas medidas

Para a líder de dança da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), Deborah Janny de Castro, 23, é preciso equilibrar as duas visões — unção e técnica —, porque alguns pastores ainda não veem a arte como ministério. “Muitas igrejas ainda não aceitam, mas é preciso unir a técnica com a parte espiritual para mostrar que a dança é usada por Deus”, declarou ela, que tem dez anos de experiência.
Aluna do terceiro período de Dança da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), ela ressalta que ter momentos separados para adora a Deus — individualmente e com o restante do grupo — é essencial para o desenvolvimento correto do grupo. “Muitas vezes, a parte espiritual fica suprimida pelo excesso de ensaios, porque todos querem apresentar algo bonito e esquecem que o Senhor é o Alvo”, afirmou.

Dar o melhor, mas sem 'escandalizar'

Apesar da necessidade das técnicas, a dança na igreja não deve permitir a entrada de ‘modismos’ que batem de frente aos valores cristãos. Esta é a opinião da líder do ministério do Auditório Canaã, Rosiane Costa dos Santos, 30, que trabalha com arte cristã há seis anos. “Dentro da igreja é adoração, culto religioso. Devemos ter cuidado com as vestimentas e coreografia, porque alguns levam parte secular e escandaliza”, disse.
A também assistente social lamentou o baixo número de rapazes, mediante a associação da dança com o homossexualismo. Tanto membros, quanto líderes têm dificuldades de aceitar bailarinos nas apresentações. “Ainda tem um pouco de preconceito, principalmente na área masculina, porque acham que homem que dança é homossexual”, lamentou, ao ressaltar que todos os ministros, independentemente de setor, querem dar o melhor a Deus.
Responsável pelas coreografias da Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Amazonas (Ieadam), na avenida Djalma Batista, Ariane Oliveira, 24, afirma que o diferencial está no foco. Enquanto espetáculos seculares se concentram na técnica, os ministros de dança não podem colocar algo no lugar de Jesus. “A técnica é necessária, porque Deus merece o melhor, mas a consagração é necessária, porque Ele olha nosso esforço e nosso coração”, declarou.