17 de maio de 2011

Nada de 'aborrescentes'

Lidar com os adolescentes deve ser responsabilidade dos pais e líderes - Foto: Divulgação

Nem criança ou adulto. A adolescência é conhecida como um tempo de transição, quando surgem muitos questionamentos que geram conflitos internos. Nesta fase, inclusive, alguns recusam ir à igreja, ou vão apenas se obrigados. “Os pais pregam uma coisa, mas vivem outra: o adolescente pensa: Se for para ser igual ao meu pai, prefiro sair da igreja”, disse o presbítero, com especialização em psicologia clínica e aconselhamento pastoral, Márcio da Silva.

O amazonense concorda com o livro “Almost Christian” (Quase Cristão), da professora de Juventude e Cultura Eclesiástica no Seminário Teológico de Princeton, nos Estados Unidos, a pastora Kenda Creasy Dean. Segundo a norte-americana, adolescentes estão adotando o que ela chama de “deísmo moralista-terapêutico”, ou seja, uma fé enfraquecida, que mostra Deus como um “terapeuta divino”, cujo principal objetivo é aumentar a autoestima das pessoas.

Da Silva explica que, na idade de 12 a 14 anos, inicia-se o desenvolvimento da personalidade da pessoa, que se espelha nas atitudes paternas e maternas. É por meio desse referencial, que eles adquirem características psicológicas e escolhem crer e buscar, ou não, a Deus.“Há muitos casos em que ele (o adolescente) não gosta de ir mais à igreja, porque não vê o Evangelho sendo colocado em prática dentro de casa”, enfatizou.

A escritora estrangeira diz no livro dela que adolescentes cristãos comprometidos compartilham quatro características, não importa origem ou denominação: eles têm experiência pessoal com Deus, envolvimento profundo com uma comunidade espiritual, senso de propósito e senso de esperança quanto ao futuro.“Existem incontáveis estudos que mostram que adolescentes religiosos têm melhores notas na escola, têm relações melhores com os pais e se envolvem menos em comportamentos de alto risco”, escreve Kenda.

Responsabilidade dividida

Apesar de a base principal estar nos pais, o psicólogo ressalta que a liderança das igrejas também deve cumprir o papel de auxiliar o adolescente a viver e conhecer os princípios do Cristianismo. “A igreja deve trabalhar em parceria com os pais; ela cuida da parte espiritual, enquanto os pais ficam com a parte emocional e educacional”, declarou, ao destacar que o ministério deve “aconselhar, orientar e estudar a situação das famílias”, que pertencem à congregação.

Entretanto, muitos pastores têm o hábito de focar os ensinamentos sempre no mesmo tema. Alguns assuntos, inclusive, ainda são considerados tabus entre os cristãos, o que prejudica o auxílio às famílias em lidar com os adolescentes. “A maioria se foca na teologia e não aproveita outros métodos que podem auxiliar”, afirmou, ao citar a especialização oferecida em São Paulo, onde líderes cristãos aprendem a agir como terapeutas no gabinete pastoral.

Quando o ‘lobo’ congrega ao lado

Em busca de novas ‘aventuras’, os adolescentes costumam ser mais ligados aos amigos e deixam de ouvir à família. Dentro da igreja, porém, eles não estão protegidos de más influências ou, até mesmo, de seguir por caminhos errados. “Há grupos isolados que têm hábitos e costumes diferentes do padrão cristão e até agem como evangélicos, mas por dentro são lobos em pele de cordeiro”, alertou o psicólogo Márcio da Silva.

Mesmo diante do alerta feito aos pais e líderes, o presbítero lembra que não se deve generalizar o modo como a sociedade enxerga os ‘futuros adultos’: “aborrescentes”. Há, sim, jovens tementes e comprometidos com o Reino de Deus. “Existem adolescentes que vivem aquilo que pregam e ministram na igreja, porque foram criados numa educação diferente, onde os pais deram o exemplo”, declarou.

Números alarmantes

O livro “Almost Christian” (Quase Cristão), da pastora KendaCreasy Dean, foi escrito com base no “Estudo Nacional da Juventude e Religião”, feito com aproximadamente 3,3 mil adolescentes norte-americanos, entre 13 e 17 anos.

Segundo a pesquisa, a maioria dos adolescentes entrevistados, que afirmava ser cristã– desde católicos até evangélicos, de denominações conservadoras e das mais liberais – era indiferente sobre sua fé e não se envolvia com ela.

Os números finais indicam que, embora três em cada quatro adolescentes americanos (75%) se declarem cristãos, menos da metade pratica sua fé, apenas metade a considera importante e a maioria não consegue falar de maneira coerente sobre suas crenças.

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