Fotos guardadas carinhosamente num álbum de capa aveludada; uma cadeira de balanço azul colocada no cantinho da varanda; plantas e flores cor-de-rosa para colorir e perfumar o ambiente. Neste espaço particular da casa, dona Lacy D’Araújo, 80, folheia as páginas que guardam imagens das bodas de ouro dela com o pastor Caio Fábio D’Araújo. Um sorriso tímido tentava esconder a dor de dois meses de saudade, completos na última quarta-feira (14/11), quando um dos ministros mais admirados do Amazonas e um dos principais líderes da Igreja Presbiteriana de Manaus (IPM) foi para perto de Cristo. Com olhar sincero, a professora aposentada não conteve as lágrimas e abriu o coração à reportagem do EM TEMPO.
O amazonense natural de Canutama (a 1320 quilômetros de Manaus), que completaria 81 anos no próximo dia 4 de dezembro, mesmo antes de se “entender por gente”, com menos de dois anos, teve de enfrentar um desafio de gente grande: uma vacina mal aplicada quase o deixou paraplégico. “Mesmo com a deficiência na perna, ele insistia em ser missionário”, afirmou dona Lacy. Até os oito anos, o menino “andava” com as mãos, porque ainda não tinha muletas para se apoiar. “O pai dele veio para Manaus e se formou em farmácia para cuidar dele”. Caio Fábio deixou quatro filhos, dez netos, três bisnetos e milhares de ovelhas por todo o Amazonas.
*Amor além da eternidade*
Município de Borba. Início da década de 50. O primeiro encontro. Ele, de família católica tradicional. Ela, de berço evangélico. As divergências religiosas, porém, nunca foram um empecilho para o casal, que viveu junto durante 54 anos. Um romance que poderia ir para as telas de Hollywood e mostrar aos céticos que, sim, é possível compartilhar alegrias e tristezas com uma única pessoa. Para a professora Lacy e, o então acadêmico de direito, Caio Fábio, foram necessários apenas alguns minutos de conversa para dar o primeiro passo em direção a uma vida inteira de amor. “Nos conhecemos num casamento. Eu era madrinha da noiva e, ele, padrinho do noivo”, lembrou.
A mais de 200 quilômetros da Capital, ambos fugiram do “arrasta pé” realizado depois da cerimônia e optaram por passear na pracinha da cidade. O jovem futuro advogado recusou o convite devido à deficiência. Mas, e Lacy? “Ele queria saber o porquê de eu não dançar, então, expliquei que era crente”. Diante da confissão da moça, o rapaz se mostrou animado e afirmou estar à procura de uma mulher séria para casar. “Entramos no barco já como namorados e nunca mais nos separamos”, revelou a aposentada. O casório foi programado para depois que Caio se formasse, entretanto, surgiu um novo impasse: em qual igreja casar? A contra-gosto das famílias, o casal se uniu apenas no civil para evitar atritos.
*Um novo homem*
Enquanto Lacy ia ao templo presbiteriano e orava pelo marido, Caio Fábio praticava o catolicismo, mas afirmava não crer na Bíblia como a verdadeira palavra de Deus. Calada, ela apenas esperava pelo agir do Senhor. “Ele dizia que a Bíblia era arcaica e cheia de lendas dos judeus”, disse a aposentada. Foi no Rio de Janeiro, onde morou de 1996 a 1971, que as preces da professora foram atendidas. Convidado para acompanhar à esposa e os quatro filhos ao culto, o advogado bem-sucedido ouviu o versículo que mudaria a visão dele: “A fé é a certeza de coisas que se esperam; a convicção de fatos que se não vêm” (Hebreus 11:1).”Essa pregação abriu os olhos dele, que começou a se interessar pela leitura do Evangelho”, declarou Lacy.
Depois de dez anos de casamento sem tocar no assunto “religião”, Caio se voltou ao estudo da Palavra, sob orientação da própria mulher, que recomendou iniciar pelo Novo Testamento. Diante do “Evangelho de João”, mais um impacto. “Ao ler sobre a crucificação, o Caio se ajoelhou, pediu perdão pelos pecados e se entregou a Cristo”, afirmou a aposentada emocionada. “Foi o momento mais precioso da minha vida”, completou ela. Na mesma semana, o advogado decidiu congregar na mesma igreja, ser batizado e já procurou informações do que seria necessário para se tornar um pastor. “Ele não queria mais exercer advocacia e queria se dedicar em tempo integral ao Reino”, lembrou Lacy.
O amazonense natural de Canutama (a 1320 quilômetros de Manaus), que completaria 81 anos no próximo dia 4 de dezembro, mesmo antes de se “entender por gente”, com menos de dois anos, teve de enfrentar um desafio de gente grande: uma vacina mal aplicada quase o deixou paraplégico. “Mesmo com a deficiência na perna, ele insistia em ser missionário”, afirmou dona Lacy. Até os oito anos, o menino “andava” com as mãos, porque ainda não tinha muletas para se apoiar. “O pai dele veio para Manaus e se formou em farmácia para cuidar dele”. Caio Fábio deixou quatro filhos, dez netos, três bisnetos e milhares de ovelhas por todo o Amazonas.
*Amor além da eternidade*
Município de Borba. Início da década de 50. O primeiro encontro. Ele, de família católica tradicional. Ela, de berço evangélico. As divergências religiosas, porém, nunca foram um empecilho para o casal, que viveu junto durante 54 anos. Um romance que poderia ir para as telas de Hollywood e mostrar aos céticos que, sim, é possível compartilhar alegrias e tristezas com uma única pessoa. Para a professora Lacy e, o então acadêmico de direito, Caio Fábio, foram necessários apenas alguns minutos de conversa para dar o primeiro passo em direção a uma vida inteira de amor. “Nos conhecemos num casamento. Eu era madrinha da noiva e, ele, padrinho do noivo”, lembrou.
A mais de 200 quilômetros da Capital, ambos fugiram do “arrasta pé” realizado depois da cerimônia e optaram por passear na pracinha da cidade. O jovem futuro advogado recusou o convite devido à deficiência. Mas, e Lacy? “Ele queria saber o porquê de eu não dançar, então, expliquei que era crente”. Diante da confissão da moça, o rapaz se mostrou animado e afirmou estar à procura de uma mulher séria para casar. “Entramos no barco já como namorados e nunca mais nos separamos”, revelou a aposentada. O casório foi programado para depois que Caio se formasse, entretanto, surgiu um novo impasse: em qual igreja casar? A contra-gosto das famílias, o casal se uniu apenas no civil para evitar atritos.
*Um novo homem*
Enquanto Lacy ia ao templo presbiteriano e orava pelo marido, Caio Fábio praticava o catolicismo, mas afirmava não crer na Bíblia como a verdadeira palavra de Deus. Calada, ela apenas esperava pelo agir do Senhor. “Ele dizia que a Bíblia era arcaica e cheia de lendas dos judeus”, disse a aposentada. Foi no Rio de Janeiro, onde morou de 1996 a 1971, que as preces da professora foram atendidas. Convidado para acompanhar à esposa e os quatro filhos ao culto, o advogado bem-sucedido ouviu o versículo que mudaria a visão dele: “A fé é a certeza de coisas que se esperam; a convicção de fatos que se não vêm” (Hebreus 11:1).”Essa pregação abriu os olhos dele, que começou a se interessar pela leitura do Evangelho”, declarou Lacy.
Depois de dez anos de casamento sem tocar no assunto “religião”, Caio se voltou ao estudo da Palavra, sob orientação da própria mulher, que recomendou iniciar pelo Novo Testamento. Diante do “Evangelho de João”, mais um impacto. “Ao ler sobre a crucificação, o Caio se ajoelhou, pediu perdão pelos pecados e se entregou a Cristo”, afirmou a aposentada emocionada. “Foi o momento mais precioso da minha vida”, completou ela. Na mesma semana, o advogado decidiu congregar na mesma igreja, ser batizado e já procurou informações do que seria necessário para se tornar um pastor. “Ele não queria mais exercer advocacia e queria se dedicar em tempo integral ao Reino”, lembrou Lacy.
*Viver é Cristo*
Rendido ao Salvador e formado em Teologia aos 40 anos, o chamado para pastorear na própria terra falou mais alto do que o status alcançado na cidade carioca. A decisão de Caio Fábio surpreendeu toda a família e fez com que a mãe-esposa buscasse consolo nos braços do Pai. “Orei ao Senhor, pedindo para que meus filhos não passassem necessidade”, revelou a dona de casa. “Deus meu deu o Salmo 37:25, que diz: Fui moço e já, agora, sou velho; porém, jamais vi o justo desamparado nem a sua descendência a mendigar o pão”, disse em meio as lágrimas. “Confiei e arrumei as malas; Deus é fiel e cumpriu a Palavra”, afirmou a aposentada.
Ordenado pastor em 71 e de volta a Manaus, o novato foi enviado para cuidar de uma “igrejinha” de palha, no Petrópolis, Zona Sul. Depois de ajudar no crescimento do Reino naquela região, Caio Fábio foi transferido para um templo, com capacidade para 600 pessoas, na qual havia cerca de 20 membros. Sem esquecer da população ribeirinha, ele deu início às primeiras evangelizações de barco da denominação. “Como a deficiência dele atrapalhava, ele começou a preparar jovens missionários”, disse Lacy, com um sorriso. “Antes era só um barquinho, bem pequeno. Hoje, a igreja tem uma frota de barcos”, informou ela. Os 40 anos de trabalho do pastor deram resultado: hoje, a Presbiteriana tem mais de 6 mil ovelhas na Capital e interior do Estado.
*Despedida*
Sempre de bom humor, o pastor Caio Fábio foi surpreendido por inúmeras enfermidades no início do semestre. Internado para uma cirurgia de câncer de próstata, sofreu várias complicações durante os 37 dias em que permaneceu internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Santa Júlia, antes de falecer, no dia 14 de setembro. “Na véspera da cirurgia muitas pessoas vieram visitá-lo e ele que teve de consolar todo mundo”, lembrou uma das netas dele, Anelise D’Araújo, 28. A alegria do ex-advogado era tão contagiante, que toda a equipe médica e os pacientes o apelidaram de “velhinho guerreiro”. “Mesmo com tantos problemas físicos ele se manteve lúcido o tempo todo e sempre tinha uma palavra de fé”, declarou.
Para Lacy, a certeza de que a partida do marido estava próxima foi quando o missionário teve a visão dos céus abertos sobre o teto do leito dele. “Ele repetia várias vezes,olhando para o teto: Jesus é belo! Jesus é belo!”, revelou novamente em meio as lágrimas. Sempre com o Evangelho por perto, o último versículo pronunciado por Caio Fábio antes de ser entubado e perder a comunicação foi Romanos 10:4: “Pois o fim da Lei é Cristo para a justiça de todo aquele que crê”. Sem poder falar, o idoso se despedia de cada um dos familiares, com as batidas do coração. “Cada vez que um de nós se aproximava para beijá-lo no rosto o ritmo cardíaco dele saia de menos de 10 para acima de 50“, afirmou a Anelise. “Depois todos saíram do quarto e ele se foi”, completou.
Rendido ao Salvador e formado em Teologia aos 40 anos, o chamado para pastorear na própria terra falou mais alto do que o status alcançado na cidade carioca. A decisão de Caio Fábio surpreendeu toda a família e fez com que a mãe-esposa buscasse consolo nos braços do Pai. “Orei ao Senhor, pedindo para que meus filhos não passassem necessidade”, revelou a dona de casa. “Deus meu deu o Salmo 37:25, que diz: Fui moço e já, agora, sou velho; porém, jamais vi o justo desamparado nem a sua descendência a mendigar o pão”, disse em meio as lágrimas. “Confiei e arrumei as malas; Deus é fiel e cumpriu a Palavra”, afirmou a aposentada.
Ordenado pastor em 71 e de volta a Manaus, o novato foi enviado para cuidar de uma “igrejinha” de palha, no Petrópolis, Zona Sul. Depois de ajudar no crescimento do Reino naquela região, Caio Fábio foi transferido para um templo, com capacidade para 600 pessoas, na qual havia cerca de 20 membros. Sem esquecer da população ribeirinha, ele deu início às primeiras evangelizações de barco da denominação. “Como a deficiência dele atrapalhava, ele começou a preparar jovens missionários”, disse Lacy, com um sorriso. “Antes era só um barquinho, bem pequeno. Hoje, a igreja tem uma frota de barcos”, informou ela. Os 40 anos de trabalho do pastor deram resultado: hoje, a Presbiteriana tem mais de 6 mil ovelhas na Capital e interior do Estado.
*Despedida*
Sempre de bom humor, o pastor Caio Fábio foi surpreendido por inúmeras enfermidades no início do semestre. Internado para uma cirurgia de câncer de próstata, sofreu várias complicações durante os 37 dias em que permaneceu internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Santa Júlia, antes de falecer, no dia 14 de setembro. “Na véspera da cirurgia muitas pessoas vieram visitá-lo e ele que teve de consolar todo mundo”, lembrou uma das netas dele, Anelise D’Araújo, 28. A alegria do ex-advogado era tão contagiante, que toda a equipe médica e os pacientes o apelidaram de “velhinho guerreiro”. “Mesmo com tantos problemas físicos ele se manteve lúcido o tempo todo e sempre tinha uma palavra de fé”, declarou.
Para Lacy, a certeza de que a partida do marido estava próxima foi quando o missionário teve a visão dos céus abertos sobre o teto do leito dele. “Ele repetia várias vezes,olhando para o teto: Jesus é belo! Jesus é belo!”, revelou novamente em meio as lágrimas. Sempre com o Evangelho por perto, o último versículo pronunciado por Caio Fábio antes de ser entubado e perder a comunicação foi Romanos 10:4: “Pois o fim da Lei é Cristo para a justiça de todo aquele que crê”. Sem poder falar, o idoso se despedia de cada um dos familiares, com as batidas do coração. “Cada vez que um de nós se aproximava para beijá-lo no rosto o ritmo cardíaco dele saia de menos de 10 para acima de 50“, afirmou a Anelise. “Depois todos saíram do quarto e ele se foi”, completou.
*Homenagem*
Dois meses se passaram e o velhinho sorridente e sempre disposto a levar o Reino de Deus ainda está presente no coração de quem o conhecia. Um vídeo feito por um dos membros da igreja, intitulado “Saudades do pai”, está disponível no site do youtube desde o dia posterior ao enterro dele. Mais de cinco mil pessoas já assistiram. “Todos os dias eu entro para matar um pouco da saudade”, afirmou a neta Anelise. “Dói, mas ao mesmo tempo é bom”, disse ela.
Dois meses se passaram e o velhinho sorridente e sempre disposto a levar o Reino de Deus ainda está presente no coração de quem o conhecia. Um vídeo feito por um dos membros da igreja, intitulado “Saudades do pai”, está disponível no site do youtube desde o dia posterior ao enterro dele. Mais de cinco mil pessoas já assistiram. “Todos os dias eu entro para matar um pouco da saudade”, afirmou a neta Anelise. “Dói, mas ao mesmo tempo é bom”, disse ela.
Foto: Maira Coelho

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