17 de agosto de 2008

*Piratas do Reino*



“Ai daquele que edifica a sua casa com iniqüidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário” (Jeremias 22:13). Você já leu este versículo? Ele está impresso no encarte de alguns CDs, como do Ministério Toque no Altar, do Rio de Janeiro, e mostra uma triste realidade que têm crescido no meio do povo cristão: a pirataria. Para grande maioria, livros, CDs e DVDs são importantes no crescimento espiritual da Igreja, como instrumento de divulgação da Palavra de Deus, seja para evangelizar ou para edificar aqueles que já conhecem Jesus. Porém, muitos caem no erro de pensar que dar uma cópia daquele “CD maravilhoso” é “abençoar o irmão”.

É comum ver inúmeros camelôs com exposição de todos os tipos de materiais falsificados no Centro de Manaus. Ao andar pela Praça do Relógio e pela Avenida Sete de Setembro, por exemplo, até parece que estamos dentro de um culto. A cada barraca pode-se “esbarrar” com Ana Paula Valadão, do Diante do Trono; Cassiane; Aline Barros; e até com o pastor Silas Malafaia. “Sempre venho ao Centro e fico impressionada com a variedade de CDs e DVDs falsos; se há tanta gente especializada em vender somente para evangélicos, isso mostra que não faltam compradores”, opinou a universitária Clícia da Costa, 22. “Como alguém que se diz filho de Deus consegue aceitar isso?”, questionou.

Diante da euforia de muitos crentes em propagar o Reino de Deus de maneira equivocada, o Ministério Casa de Davi, faz questão de ministrar sobre a “pirataria gospel” em todos os congressos que realiza pelo Brasil. “Numa das viagens, um rapaz chegou para mim todo feliz, dizendo que gostava tanto do nosso trabalho, que comprou o CD e fez cópia para todos os amigos da igreja dele”, disse o integrante do grupo do Paraná, Davi Silva. O ministro, inclusive, pede aos participantes que levem todo o material copiado para ser queimado no último dia do evento. “Não adianta usar a desculpa de querer apenas abençoar alguém”, afirmou ele. “É melhor comprar o original e abençoar o irmão e o ministério”, completou Silva.

Não somente os louvores, mas também livros de pregadores mundialmente conhecidos e apostilas vendidas exclusivamente para estudos em seminários costumam ser xerocados e distribuídos dentro dos próprios templos. “Conheço muitos líderes que fazem isso para presentear seus discípulos”, disse o presbítero José Oliveira, 53. “Além de pecarem, eles estão dando um péssimo exemplo”, enfatizou. A esposa dele, Ana Maria, 51, já chamou a atenção dos próprios filhos para o problema. “A maioria dos jovens tem esse negócio de pegar tudo na Internet; devemos ensiná-los que isso é pecado, porque é a mesa coisa que comprar de um camelô e roubar o trabalho de outro irmão”, opinou.

*Fidelidade ao original*

Apesar do crescimento visível do mercado ilegal de CDs, a gerente da loja Disco Laser, da Rua Barroso, Centro de Manaus, Tayana Karen, garante que a venda para evangélicos já representa 90% da arrecadação mensal do empreendimento. “Os crentes priorizam o original, porque sabem que é proibido nos mandamentos de Deus”, afirmou. Conforme ela, no setor chamado de “secular”, a queda causada pela pirataria dá mais prejuízos do que no gospel. “Ainda têm alguns que preferem gastar menos para terem apenas certo louvor”, disse Karen. “Se não houvesse CDs piratas, creio que venderia muito mais”, opinou a gerente.

* Lei dos Homens x Lei de Deus*

Segundo a Lei dos homens a pirataria é crime previsto na Lei nº. 9610 de 19 de fevereiro de 1998, do Código Civil; e no Artigo 184, parágrafos 1º e 2º, do Código Penal Brasileiro: Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: pena de três meses a um ano, ou multa. Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, (...) pena de dois a quatro anos, e multa.

Já na Bíblia, apesar de a palavra “pirataria” não aparecer explicitamente em nenhum dos livros do Antigo ou do Novo Testamento, não faltam versículos que enfatizem o valor do trabalho e que o próprio Senhor dos Exércitos se levanta para julgar quem defrauda o trabalhador. Confira alguns versículos:

Mateus 10:10b - “Digno é o trabalhador do seu salário”
Jeremias 22:13 - "Ai daquele que edifica a sua casa com iniqüidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário";
Malaquias 3:5 - "E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os que defraudam o trabalhador em seu salário, diz o Senhor dos exércitos".

*A Pirataria em Números*

Segundo o Relatório de Pirataria Comercial de 2005 da indústria fonográfica, publicado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), um em cada três discos musicais vendidos no mundo é pirata, um mercado que alcança US$ 4,6 bilhões. Em 2004 foram vendidos 1,2 bilhões de discos fonográficos piratas – o que representa 34% de todos os discos vendidos no mundo. Com uma taxa de pirataria de 52% (dados de 2003), apesar de uma recuperação parcial do mercado brasileiro em 2004, as vendas de unidades piratas superam as de vendas legítimas.

Em 2006, pela primeira vez a Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) também apresentou uma pesquisa de mercado sobre o universo musical na Internet. O estudo constatou que 8,2% da população pesquisada – cerca de 2,9 milhões de pessoas – baixaram música na rede mundial de computadores em 2005. Isso contabiliza quase 1,1 bilhão de canções baixadas. Os prejuízos desse mercado ilegal se refletem na redução das oportunidades de trabalho. Nos últimos anos, as gravadoras reduziram em cerca de 30% o número de funcionários e cerca de duas mil lojas de discos foram fechadas.

* Os efeitos da pirataria no setor fonográfico (1997 a 2005) *

Postos de trabalho diretos: -50%.
Número de pontos de vendas fechados: 3500.
Lançamentos de produtos nacionais: - 44%.
Número de empregos perdidos no setor: 80 Mil (gravadoras, fabricantes, comércio...)
Estimativa de perda de arrecadação em impostos: R$ 500 milhões anuais (considera ICMS, PIS e Cofins).

Fonte: Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD)